Multiarte- Inclusão

                                                MULTIARTE-INCLUSÃO


    Multiarte- Inclusão é um projeto que visa incluir pessoas com quaisquer demandas, que são consideradas socialmente diferentes da população. Partimos do princípio de que todos seres humanos tem potencialidades, mesmo que cada um em seu tempo, de forma individualizada, siga da maneira que lhe é mais conveniente.
   Em 2003 este trabalho foi iniciado, recebendo várias pessoas com diferentes formas de ser. A idéia central é justamente unir pela diferença, desenvolvendo o respeito, tolerância e o trabalho em grupo. Entendemos que não exitem coitados ou privilegiados, existem pessoas e cada uma tem seu caminho a seguir. Por quaquer razão que seja, estaremos dispostos a incluir e desmistificar o preconceito pela diferença, afinal, não seria a grande busca do ser humano justamente a individualidade? Sua identidade diante do mundo...

   São vários os aspectos de inclusão: sejam físicas, mentais, sociais. Não interessa. O objetivo é justamente trazer a oportunidade e a medida que o trabalho for se desenvolvendo, serão feitas apresentações em conjunto com a Cia. Marcia Gelape Multiarte.
   O trabalho Multiarte-Inclusão não tem fins lucrativos, sendo uma proposta social de criar oportunidades.










 Artigo sobre o desenvolvimento do trabalho Multiarte-Inclusão:

                                     Breve relato de uma psicóloga-bailarina
                                                                                                     Mácia Gelape Muzzi

Sempre estive muito intrigada com a forma que a dança se manifesta em diversas culturas e seu significado em cada uma delas. Era uma realidade na época primitiva que todos os povos tinham o costume de sapatear, é uma realidade contemporânea as várias formas de sapatear. Podemos ver que o significado da dança varia de acordo com a intenção e o momento em que ela é executada, mas sabemos que mesmo estando hoje nos grandes palcos e espaços culturais, sua raiz é antropológica, diz respeito de uma cultura e um sentimento.

Em minha condição de coreógrafa, sempre assumi uma posição investigativa diante de minhas idéias cinestésicas e uma sede de saber da diversidade cultural, sempre relativizando a informação para que ela se tornasse coerente com a realidade de sua origem.

Quando iniciei meu trabalho com pessoas de limitação psicomotora e intelectual procurei enxergá-las despidas do rótulo lesão cerebral em tal parte, síndrome de down, psicose, autismo, perversão, retardamento,etc. Sempre priorizei a premissa: fazer algo com a possibilidade de cada um, pois limitação já é fato consumado irreversível independente de minha vontade.

Assim fui experimentando várias formas de me tornar parte do mundo delas e conclui que elas também me enxergavam pela minha possibilidade, assim fomos interagindo. Dentre minhas várias tentativas, recordei dos estudos antropológicos de Lévi-Strauss, lancei meus olhares ao primitivo. Em seguida relacionei a lógica da pirâmide das necessidades básicas de Maslow: somente depois da satisfação das necessidades fisiológicas de sobrevivência é que o ser humano consegue chegar a um nível emocional. Pois bem, meus alunos tinham suas necessidades básicas bem preenchidas e sentiam-se seguros em sua moradias, o que caberia a mim então na posição de regente daquele grupo lhes agregar?

Movimentos perfeitos nunca foram meu foco, sempre priorizei a forma de cada um. Ao colocar esta liberdade me dei conta que entrei em um vasto e rico campo emocional: uma nova forma de linguagem, de expressão de sentimentos, de elaboração dos mesmos e de consciência grupal.

Em meu trabalho com a dança tenho grande destreza no flamenco e na dança regional brasileira, sempre foram meus maiores focos e especialidades. Começei a notar que diante de certas batidas rítmicas e certos tipos de canto o grupo reagia de forma amena, alegre, sensual, agressiva, triste e até mesmo tempestiva. Ao fazer a ligação com quais ritmos provocavam tais reações, vi que quando o sapateado e o som da percussão estavam presentes de forma mais gritante era de se prever que a reação grupal seria mais passional, porém poderia ser canalizada para alguma forma de elaboração psicológica, já que essa tempestividade era a prova de algum conflito emocional.

Depois de muito pensar recordei-me de uma trilha sonora em que inseri o som da batida do coração de meu filho mais velho enquanto estava em minha barriga. Parece que neste momento entendi toda a questão: o primitivismo da batida dos pés e o som contínuo do sapateado nos remetem em algum grau bem subjetivo à vida ulterior e ao conforto da maior proteção e prazer já experimentado pelo ser humano: a alienação total da condição humana e o prazer total de ter tudo sendo feito pelo que gera a vida e todas as necessidades atendidas em seu pronunciamento imediato.

Nos seguintes encontros pude perceber e conduzir a uma elaboração da vivência do primeiro afeto e da luta que eles travavam para compreenderem um mundo globalizado e dinâmico, quando saem da proteção absoluta para serem limitados pelo mundo. Normalmente os pais destas pessoas tendem a refazer um útero no mundo exterior, dando-lhes tudo na mão e reprimindo sua capacidade de buscar e o mais prejudicial: a retirada da possibilidade de viver seu sentimento de realização e de utilidade.

Através da dança, das palmas, do sapateado, do batuque do cajón e do atabaque fomos internalizando a dinâmica do respeito ao desejo do outro, a condição de viver em grupo e a aceitação da diferença, visando o que cada um tem para acrescentar no grupo como um todo, colocando sempre a meta de construir um grupo melhor com o melhor de cada um.

Com este trabalho e este questionamento sobre os comportamentos apresentados, senti que estabeleci uma nova linguagem com quem não tem articulação nas cordas vocais, com quem não consegue elaborar o que sente e foi descoberta uma forma mais construtiva deles estarem no mundo e de conviverem com suas dificuldades humanas. Percebi também que em alguns casos específicos foi de grande realização o trabalho de elaboração do ódio de forma bem primitiva, onde um ataque de raiva se transformava em um bonito sapateado e a causa da raiva, provavelmente o sentir-se rejeitado se tornava uma criação que fazia a rejeição virar inclusão.

Ao colocá-los no espetáculo minha orientação para a companhia profissional foi de os tratarem como gostariam de ser tratados, pois o maior afeto que posso dar a eles é a desestigmação e a responsabilidade pelas suas possibilidades.

À medida que desenvolvo este trabalho consigo perceber grande evolução psicológica, consciência de espaço, cidadania, desenvolvimento psicomotor e o mais importante: a inclusão deles como seres humanos que possuem limites e possibilidades da mesma forma que todos os seres humanos.

Considero esta proposta de trabalho uma riqueza diante da possibilidade de cada um e um grande aprendizado em lidar com o diferente e com o inesperado. Enquanto psicóloga pude perceber aspectos emocionais e desenvolvê-los e enquanto bailarina tive a chance de me tornar melhor professora me deparando a cada dia com um instigante desafio.